É longa? É, mas outra como esta não volto a contar.
O pagamento
7 meses antes
Pusinko recebe um email não oficial de um colaborador do chefe, um Gentleman em toda a acepção da palavra. Grande apreciador de Bach, mora em Londres e com quem já estive por diversas ocasiões.
Pedia-me que lhe reservasse bilhetes para as Cantatas de Bach, pela batuta de Sir John Eliot Gardiner. Por favor, antes de esgotarem, tal reserva só por telefone e ele não conseguia entrar em contacto com a operadora. Caso eu gostasse, teria todo o gosto em convidar-me. A esposa não o poderia acompanhar nessa altura e assim teria companhia. Já agora, que perguntasse também aos outros colegas e chefe se queriam vir. Na cabeça dele não é propriamente possível não apreciar Bach. (Claro que o bilhete oferta era só para mim, por aceitar acompanhá-lo)
"Sim, claro, quando é o concerto?"
"Em Dezembro! Já estamos em cima da hora. Os melhores lugares desaparecem num ápice."
(em cima da hora = 7 meses antecedencia e tinha razao)
Prometi resolver o mais rápido possível. Paguei na hora para receber os ditos cujos pelo correio. Em 2 dias estava tudo tratado.
O Gentleman agradeceu imenso e perguntou como faríamos, se transferência internacional ou se me entregava o dinheiro em mãos, evitanto taxas entre países. Concordei com a segunda opção.
Os meus colegas acharam muito boa ideia mas ninguém se dispôs a pagar a pequena fortuna por lugares chiques que, no caso deles, implicaria esposo/a ou companheiro/a, duplicando os gastos. E com tantos meses até lá... depois se veria (não se viu)
O chefe não iria por imperativos profissionais. (Meses mais tarde, os planos mudaram e com ajuda de uma estrelinha gigante conseguiu lugar ao nosso lado.)
7 meses depois
O Gentleman chegou bem e foi descansar no hotel. Marcamos encontro numa das praças mais modernas desta capital (e das boas) 1,5h antes do concerto.
Pusinko fez todas aquelas mariquices necessárias para ficar vaporosa e (ainda) mais bonita, apronta-se e sai.
O taxi pára. Com um equilíbrio que nem ela se julgava capaz, atravessa 50m sobre neve e gelo (principalmente gelo) com uns stilettos de verniz de 11cm de altura. Congratula-se interiormente por não ter havido acidente e, mais ainda, com a elegancia inesperada, como se nao pudesse partir o rabo a cada passo.
O reencontro foi, como sempre, entre elogios cuidados e small talk com aquele sotaque arrasador. Optamos por ir a um restaurante com pinta comer alguma coisa leve e beber um copo de vinho antes do concerto.
Entramos, ele ajuda-me a despir o casaco e puxa a cadeira. Na mesma sala estão as mesas quase todas ocupadas. Ficamos perto de um grupo maior com jovens bem apessoados. Ele de frente para as escadas, eu voltada para o resto da sala a meia luz.
A conversa vira em 2 segundos para o trabalho. Vem o moço com o menu e nós riamos de uma piada dele sobre o meu chefe (e da estrelinha da sorte que o fez arranjar bilhete tao tarde). Feitos os pedidos entre conversa de circunstancia, voltamos ao tema trabalho e projectos futuros. Bla bla bla vem o vinho bla bla a entrada deliciosa bla bla e:
- Ahhhh que quase me passava de ideia! E tu nem me dizias nada! Ohhh cabeça a minha, tenho de te pagar os bilhetes!
E mete mão ao bolso.
Pusinko anteveu um timing muito mau para tal e arregalou os olhos, como quem diz: "Pshhh náa, deixa estar que podes pagar os putos dos bilhetes mais tarde." Na impossibilidade de articular, pensou com muita força para a mensagem sair em feixes pelos olhos. Não saiu.
- Ah, achei a carteira. Espera.
Saca uma certa e determinada quantidade de notas (que não eram de 5 euros) e entrega-mas, com a maior descontracção.
- Confere se está tudo.
Eu não reajo, obviamente.
Recapitulemos: estou bem penteada pelo cabeleireiro, maquilhagem e manicure profissionais, envergo um vestido azul escuro de bom corte, pelo joelho com um decote evidente, embora não abusado, e acompanho um homem muito bem vestido, alto, olho azul, porte elegante, que fala comigo num inglês acima da média, com mais do dobro da minha idade (2,63 para ser mais precisa) que me entrega notas para a mão enquanto pede que confira o valor.
Seguro as notas, morro 2 segundos, ressuscito, arrumo-as na clutch, branca como a cal porque o sangue parou de circular entretanto.
Os moços bem apessoados da mesa ao lado disfarçam o melhor que podem e fazem de conta que não se passou nada.. o moço da bandeja dá meia volta...
Eu mantenho os olhos arregalados, em choque.
Durou muito pouco tempo, é um facto, mas pareceu meia eternidade.
Tomando consciência da situação, provavelmente ao ver o meu ar de morta, diz com o sotaque escocês mais maravilhoso do mundo* e uma oitava acima do normal como que a desfazer eventuais equívocos de terceiros: "Oh dear, I hope nobody misunderstood us". E sorri, embaraçado. Depois gargalha. Eu não. Decide que a melhor estratégia é ignorar tudo e todos e voltar ao tema de trabalho que discutíamos antes, com pormenores relativamente nojentos e vocabulário técnico para desanuviar.
Foi mais difícil para mim, que estava de frente para uma família e ao lado dos moços jovens e bem parecidos? Claro que sim. Mas mantive a pose, porque uma lady sabe desenvencilhar-se com classe de momentos inesperados.
Foi uma situação normal num contexto específico: regressava no dia seguinte e não queria esquecer dos bilhetes. Afinal, era um concerto único, para apóstolos de Bach e eu era sua convidada. Mas foi um timing tãããããooo péssimo.
Epílogo: Eu paguei a conta. Só porque sim. Não o deixei sequer mencionar 1 palavra em contrário. Dali fomos ao concerto, encontramos o meu chefe que tinha estado preso numa reunião e passamos um serão muito agradável entre taças de champagne e música maravilhosa. À borliu. Ou... à custa da minha reputação naquele restaurante. Engraçado, agora que penso nisso, nunca mais lá voltei...
* Sotaque escocês pois ele é da Escócia. É, também, o melhor substituto do Sean Connery de todos os tempos. Não gosto do Sean. Por isto. Curiosamente falei do Sean e deste Gentleman no mesmo post ahah. E cá estão outra vez. Ouvi-lo falar é uma alegria.